domingo, 31 de julho de 2011

Assassinaram o Assassino.

Por Laura Chaloub

Parecia ser um dia comum. Desses que a Voluntários da Pátria tá todo engarrafada, com gente estressada buzinando, ônibus quebrado, carro enguiçado. Dia típico de se demorar mais de uma hora atravessando Botafogo pra chegar ali pelo Flamengo ou Largo do Machado. Nem quis saber de nada; fiquei lendo meu romance do Caio Fernando Abreu, intrigada com a escrita e com os sentimentos do gênio. Foi por essas horas num ônibus lotado, típico calor do Rio de Janeiro num dia de praia, que me interrompe a leitura uma moça. Moça bonita, que usava uma blusa bonita e um sapato bonito. Aquela coisa de gente chique. Mais chique do que eu – o que não era muito difícil de ser.

Ela, como ia dizendo, disse com voz de desgosto “Assassinaram o assassino”. E um suspiro longo, pesado. Daqueles que dão um aperto no coração. Já tava sabendo. Aquele homem, Osama, tava é morto. O Jornal tinha inventado de passar gente americana comemorando. Comemorando como se tivesse estabelecida a paz mundial e eterna. Ri com meus pensamentos, ela percebeu. Achou que era dela. Me desculpei.

“Tá sabendo, né?”

“Tô sim.”

“Tá gostando também?”

“Tô não” Silêncio. Desgosto. “E a senhora?”

“Também não.”

“’Mó’ hipocrisia essa coisa de matar, num acha?” Silêncio. “Olho por olho e o mundo tá aí, todo cego. Comemorando a morte como se a violência tivesse acabado. Comemorando como se aquele homem, Obama, que matou o outro homem, Osama, fosse herói.”

“Assassinaram o assassino” ela repetiu com um sorriso triste “E depois dizem que é direito humano ser julgado pra, então, ser condenado…”

.“Talvez devêssemos matar eles”

“Quem?”

“Os americanos… Mataram Osama. São criminosos”

“Nos matariam por matá-los”

“E os matariam por matar-nos”

“E todo mundo ia morrer”

“O mundo ia ficar mais belo. Deveríamos matá-los” repeti.

“É, talvez devêssemos mesmo.”

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