Por Mateus Girafa
Trinta e oito anos após o golpe militar que derrubou o Presidente Salvador Allende e mergulhou o Chile numa ditadura, a população pede um re-exame sobre o corpo para enfim saber como Allende morreu. A recente exumação não apenas soluciona a questão de suicídio (como afirmam os militares) ou assassinato, mas relembra e traz à tona o histórico de embates ideológicos e agitações políticas da América Latina.
O Chile era umas das mais consolidadas democracias da América, com cerca de 140 anos de liberdade política quase ininterrupta após a independência. Em meio à divisão do mundo e da América na Guerra Fria, com a revolução cubana em 1959 e o golpe militar brasileiro em 64, o clima era de tensão e divisão da política chilena nos dois polos. Em 1970, Allende, ex-exilado político e derrotado nas três eleições anteriores, une forças da esquerda chilena em torno da Unidade Popular e ganha as eleições contra o conservador Jorge Alessandri, tendo como grande aliado o escritor Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura. ![]()
Os trabalhadores chilenos viam enfim, um governo que os representava. Dando sinal vermelho à tradicional exploração das classes populares em países subdesenvolvidos, Allende estrutura a sociedade com projetos de reforma agrária e nacionalização de indústrias sem abrir mão da democracia e liberdade política. Mas a direita chilena se vê ameaçada e se articula junto a CIA para quebrar a economia, com boicotes ao setor alimentício e greves dos transportes.
Allende representava igualdade e avanço demais para o grande capital, então no dia 11 de Setembro de 73 os setores reacionários chilenos, os EUA e a ditadura brasileira apoiam o golpe militar que invadiu o Palacio de la Moneda em Santiago. Na última mensagem do presidente ao povo, ele diz:
''Trabalhadores da minha pátria: quero lhes agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que somente foi o intérprete dos grandes anseios de justiça. Estou me dirigindo, sobretudo, à modesta mulher da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, àqueles que cantaram, que entregaram sua alegria e seu espírito de luta. Pagarei com a minha vida a defesa dos princípios que são caros a esta Pátria”
Allende morre com um fuzil soviético à mão: estava instaurada a ditadura militar no Chile sob o comando do general Augusto Pinochet que duraria 17 anos e deixaria milhares de mortes, repressões e mazelas.
O Chile foi apenas mais um país que tentou buscar justiça, tentou superar o quadro de exploração e subdesenvolvimento e se viu castigado por sonhar. Passadas as décadas de 80 e 90 e as grandes ditaduras latinas, vemos o Chile rever sua história de governo militar (vale lembrar que Pinochet foi condenado por seus crimes, morrendo de saúde pouco depois) e a Argentina perseguir seus torturadores, enquanto o Brasil ainda fica parado diante do argumento militar de “revanchismo” e nem ao menos consegue dar satisfações às famílias dos desaparecidos. Resta-nos apenas não ficarmos passivos frente ao passado e presente de manipulação e controle da América Latina como este 11 de Setembro, que os EUA preferem dizer que não aconteceu.
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