Por Fabiano Lemos
Imagina um dos maiores cantores do Brasil, autor de grandes sucessos que falavam desde cores até doces, conhecido pelo seu gosto pelo excesso principalmente de álcool e fumo e seu humor inconfundível. Agora imagina esse mesmo cantor pronto para entrar em estúdio para gravar um LP (sim, ainda eram LPs) duplo financiado por uma das maiores gravadoras do país que investiria pesado em sua divulgação. Tem como dar errado? Sim, tem como dar muito errado.
O ano era 1975 e o cantor era Tim Maia. Ele estava por cima já que no ano anterior tinha lançado o LP “Tim Maia Vol. IV” que emplacou dois grandes sucessos: “Gostava Tanto de Você” e “Réu Confesso”. Além disso, as canções do novo disco estavam prontas e Tim e a sua banda de apoio Seroma (junção da primeira sílaba de cada parte do nome de batismo dele, SebastiãoRodrigues Maia) estavam muito satisfeitos com as suas composições para o novo álbum. Estava tudo pronto para mais um sucesso de crítica e venda. Eis que aconteceu o inimaginável.
Em uma visita a seu amigo Tibério Gaspar, Tim aproveitou o banho de Tibério para ler um dos livros de seu amigo. O nome do livro era “Universo em Desencanto” escrito por Manuel Jacinto Coelho. Nele estavam as bases e ideias da Cultura Racional. Ela mudaria a vida de Tim pelos próximos dois anos e também o seu esperado LP duplo. Mas antes de continuar tem que haver uma rápida explicação do que era a Cultura Racional.
A Cultura Racional era uma religião criada por Manuel, autor do livro que Tim leu, e acreditava que os seres humanos eram, na verdade, alienígenas na Terra e que os nossos “irmãos” extraterrestres viriam um dia nos buscar, mas, só levariam para o nosso planeta de origem aqueles que tinham lido os livros de Manuel e seguido a doutrina Racional.
Logo que saiu da casa de Tibério, Tim foi imediatamente para Belford Roxo onde Manuel morava. Após conversar com ele, o cantor ficou hipnotizado pela seita Racional e mudou radicalmente a partir disso. Primeiramente, ele parou de fumar, beber, comer carne vermelha e ter qualquer atitude politicamente incorreta. Além disso, passou a usar apenas roupas brancas e tudo em sua vida passou a girar em torno da sua Imunização Racional que o levaria para um mundo melhor, inclusive a sua música e a banda Seroma.
A partir daquele momento, só trabalhava com Tim Maia aquele que tivesse lido o livro “Universo em Desencanto” e seguisse a risca as suas recomendações. Ele converteu a banda inteira à Cultura Racional e controlava rigorosamente seus membros já que eles não podiam beber, fumar e nem comer carne vermelha assim como próprio cantor. Aquele que fosse pego no flagra ou tivesse com hálito de cigarro, maconha ou álcool era imediatamente demitido da banda. Além disso, Tim fez mudanças nas letras do LP que seria lançado futuramente para exaltar ainda mais o agora mestre Manuel e a importância da Imunização Racional para a salvação da humanidade. Essas mudanças não agradaram nada a gravadora que não aceitou gravar dois LPs inteiros que faziam uma ode a uma religião estranha ainda mais na época da ditadura militar em que a moral e os bons costumes eram extremamente valorizados.
O álbum que se chamou “Tim Maia Racional Vol. I e II” teve que ser lançado de forma independente e por isso teve uma pequena tiragem inicial. Apesar de algumas ótimas músicas como “O Caminho do Bem” e “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola”, o disco foi duramente criticado pela mídia e o público não aceitou muito bem as ideias malucas propostas pelo disco, os poucos disponíveis ficaram encalhados nas prateleiras da loja e os shows estavam sempre vazios.
Apesar disso, Tim não desistiu. Na verdade, estava mais ambicioso e acreditava que poderia espalhar a Cultura Racional para o mundo. Para isso, ele mandou um livro de Manuel para James Brown e outro para John Lennon. Os livros não foram traduzidos, mas segundo Tim, a força Racional faria com que eles entendessem. James ignorou o livro e o ex-Beatle de uma maneira educada e simpática mandou o livro de volta com uma foto sua em que estava completamente pelado e o seguinte bilhete: “Dear freak, I don’t understand portuguese. What about you LISTEN to this foto. John Lennon”. Tim ficou possesso e falou que John só tinha mais nove anos de vida. Na verdade, ele errou por quatro anos já que em 1980 John Lennon foi assassinado em Nova Iorque, Estados Unidos.
Tão repentina quanto a sua entrada no mundo racional, foi a sua saída. Um belo dia, Tim Maia acordou com muita vontade de comer uma carne e beber um whisky. Como estava sem dinheiro por causa dos custos do disco e a Imunização Racional parecia estar longe, decidiu abandonar a seita. Afinal, ele seguia todas as instruções do livro como poderia estar sem dinheiro e o disco não ter feito sucesso? Depois disso, voltou a ser o velho Tim Maia, bêbado, cafajeste e falastrão.